Prof. Mario Henrique Simonsen

O Professor Mário Henrique Simonsen sintetiza, na sua vida, prática acadêmica e obra, os ideais mais profundos e ambiciosos da FGV/EPGE. Dentro da galeria de personagens-chave do desenvolvimento da ciência econômica brasileira, com profundo envolvimento com a FGV/EPGE, onde também figuram Eugênio Gudin e Octávio Gouvêa de Bulhões, Simonsen tem um lugar especial. Primeiro, pelo seu papel formador e irradiador da teoria econômica moderna no Brasil, em toda a sua complexidade e busca de rigor por meio da formalização matemática. E, em segundo lugar, pelo fato de o desenvolvimento acadêmico da FGV/EPGE confundir-se, em boa parte, com a história de vida de Simonsen e com o caminho por ele escolhido para cumprir aquela missão. A FGV/EPGE não existiria, tal como a escola é hoje, sem a sua presença.

Engenheiro e economista, Simonsen doutorou-se em Economia na Fundação Getulio Vargas em 1973 e, na prática, dedicou toda a sua vida adulta a esta ciência, como professor, consultor, assessor, membro de conselho de várias instituições (inclusive internacionais) e ministro de Estado. Com uma inteligência prodigiosa, que navegava criativamente pelos seus muitos interesses - economia, filosofia e música clássica, para ficar nos principais -, Simonsen personificava os atributos necessários a um bom professor. Tolerante com o erro não intencional e rigoroso na crítica à preguiça intelectual e à falta de lógica, o Professor tinha uma relação informal, afetuosa e instigante com os seus alunos.

O brilhantismo intelectual de Simonsen permitiu-lhe desenvolver, no Brasil, uma formação em matemática e economia que, nos seus anos de aprendizado, era praticamente reservada para os poucos que chegavam às principais escolas de Economia no exterior, especialmente nos Estados Unidos. O seu domínio da Economia o levou não só ao Ministério da Fazenda, no governo de Ernesto Geisel, mas também à posição de um consultor informal e desinteressado de todos os governos subsequentes, enquanto esteve vivo. Simonsen dialogava, de igual para igual, com os principais expoentes da Economia no mundo - às vezes pessoalmente, em debates e discussões na FGV/EPGE, onde não raro teve como interlocutor algum prêmio Nobel. Com um pendor impressionante para a clareza e o didatismo, o Professor também se sobressaiu pelas suas contribuições na imprensa - algumas delas regulares -, onde se comunicava com o público em geral e injetava doses de racionalidade e bom-senso no debate político-econômico brasileiro.

Academicamente, Simonsen foi um pioneiro no Brasil na detecção e investigação do fenômeno da realimentação (ou inércia) inflacionária. Porém, ao contrário dos "heterodoxos" que lançaram os primeiros, e fracassados, planos anti-inflacionários a partir da segunda metade da década de 80, Simonsen nunca deixou de alertar que o rigor fiscal era indispensável a um bem-sucedido programa de estabilização. Em relação à experiência exitosa do plano Real, que apoiou com entusiasmo, Simonsen sempre foi uma voz acauteladora sobre o risco de uma dependência excessiva de capitais externos, que acabou levando às sucessivas crises dos anos recentes.

Talvez pela carga de autodidatismo na sua formação, Simonsen tinha uma visão econômica eclética e integrada, que buscava colher das diversas correntes as melhores contribuições, e evitava a pobreza intelectual dos debates meramente ideológicos. Esta abordagem está na raiz da orientação acadêmica da FGV/EPGE. Plantada pelo próprio mestre, a atitude de abertura mental, acompanhada de rigor matemático e lógico, foi cuidadosamente disseminada por Simonsen entre os seus alunos e os professores da FGV/EPGE em aulas, conversas informais, à mesa (ele também era um grande garfo!) e nas inúmeras ocasiões em que o prazer de pensar era o fio condutor de momentos inesquecíveis. Nós, da FGV/EPGE, que testemunhamos o brilho humano e intelectual de Mário Henrique Simonsen, ou que dele somos tributários, deixamos gravado nesta página o compromisso de buscar, sempre, estar à altura da sua dignidade e inteligência. Saudades, Mestre.